quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Nem socialismo, nem pós-capitalismo: América Latina vive transição e revoluções, diz embaixador equatoriano

Região precisa se posicionar competitivamente, em uma nova economia que não subordine os direitos do capital sobre os direitos dos seres humanos, diz Galarza
“Eu pergunto: por acaso Venezuela, Equador e Bolívia vivemos o socialismo? Posso afirmar com absoluta tranquilidade que não. Vivemos um momento histórico de coexistência, de disputa com o capitalismo. Não vivemos um momento pós-capitalista, nem pós-neoliberal, mas existimos em um momento de transição, de reforma, mudança e revolução, porque ainda não temos e não sabemos se teremos um modelo alternativo ao capitalismo”. Assim, o Embaixador Itinerante do Equador para Assuntos Estratégicos, Ramón Torres Galarza, definiu um dos desafios da América Latina no marco da nova ordem mundial e da integração regional.
Vanessa Martina Silva/ Opera Mundi

Igor Fuser, Gilberto Maringoni, Ramón Torres Galarza, Mariza Bertoli e Carlos Eduardo Martins
Em visita ao Brasil, onde firmou convênios com uma série de universidades brasileiras pelo Programa Regional Latino-americano de Docência e Investigação: Democracias na Revolução e Revoluções na Democracia, o diplomata equatoriano participou, ao lado de Gilberto Maringoni (UFABC), Igor Fuser (UFABC), Mariza Bertoli (USP) e Carlos Eduardo Martins (UFRJ) da mesa sobre o futuro e os desafios da integração regional realizada pelo Prolam (Programa de Integração Latino-Americano) da USP. Na sequência, a reportagem de Opera Mundi aborda alguns dos principais temas tratados pelos especialistas:
Desenvolvimento
Para o professor de Relações Internacionais da UFABC e ex-candidato a governador do Estado de São Paulo pelo PSOL, Gilberto Maringoni, “por mais que ao longo desses 16 anos — desde a eleição [do ex-presidente venezuelano Hugo] Chávez (1999-2012) — esses governos tenham tentado colocar a questão social no centro da agenda e por mais que Equador, Bolívia e Venezuela tenham até mesmo feito novas constituições, não mudamos nossa estrutura produtiva. A Venezuela segue vendendo petróleo e o Brasil, commodities”. Além disso, ele ressalta que a região, e principalmente o Brasil, viveu um forte processo de desindustrialização nos últimos anos.
No mesmo sentido, o professor do departamento de Ciência Política da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e pesquisador do Clacso (Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais), Carlos Eduardo Martins, avalia que a conjuntura favorável aos governos progressistas, que “apareceu no começo do século 21, começa a desaparecer em grande parte por estratégias dos Estados Unidos, que fizeram uma política de expansão da produção de petróleo. O resultado é que os países que usavam esses recursos estratégicos para fazer uma política mais avançada em termos sociais, perdem essa capacidade, sobretudo a Venezuela”.
Já Galarza apontou como desafio regional o fato de que a “América Latina precisa gerar uma capacidade soberana na indústria local”. Isso para que a região se “posicione competitivamente, em uma nova economia não extrativista, mas que relacione capital, trabalho e natureza e que não subordine os direitos do capital sobre os direitos dos seres humanos, nem os direitos do trabalho sobre os direitos da natureza”.
Cúpulas e governos
Tratando do avanço dos países em direção a uma resposta comum, integrada, o professor de Relações Internacionais da UFABC Igor Fuser aponta que, apesar de a integração regional estar entre as cláusulas pétreas de Constituição brasileira, no âmbito popular não há informação a esse respeito.
“Avançamos muito. Temos a Unasul [União das Nações Sul-Americanas] que já se mostrou muito importante em vários momentos, como quando a Bolívia esteve à beira de uma guerra civil, ou quando o Equador viveu a tentativa de um golpe de Estado ou ainda durante a intermediação, no ano passado, dos conflitos ocorridos na Venezuela. A Celac também representa um avanço”, aponta Fuser.
Ana Bueno

Exposiçao de Mariza foi baseada nas artes 
O professor, entretanto, ressalta que muitas vezes o tema serve para a realização de cúpulas e mais cúpulas, mas não afeta o cotidiano das pessoas que seguem precisando de passaporte para entrar em determinados países, ou ainda no caso de estudantes latino-americanos que não podem defender suas teses de mestrado ou doutorado em espanhol porque o único idioma aceito, na maior parte das universidades brasileiras, é o inglês.
“Quando pensamos em uma integração efetiva, estamos pensando em uma integração feita pelos povos como expressão de seus próprios meios”. Como exemplo dos entraves a esse processo, Fuser mencionou a questão da organização dos trabalhadores. “A classe trabalhadora mantém desde o século 19 sindicatos, mas estes que hoje se encontram debilitados.  No começo do Mercosul, a CUT se reunia, mas isso foi se perdendo”, aponta.
Desafios
“Se compararmos o processo de integração na América Latina durante os governos neoliberais, veremos que institucionalmente ele deixou um legado muito mais claro e consistente do que o processo integracionista levado a cabo ao longo dos últimos dez anos pelos governos de esquerda”, avaliou Martins.
Isso porque em quatro anos de neoliberalismo esses governos conseguiram avanços como o “regionalismo aberto [acordo preferencial que cria comércio entre os membros do acordo, sem incrementar as barreiras preexistentes em relação ao restante dos países do mundo], na redução drástica das barreiras alfandegárias”, menciona para emendar que “em mais de dez anos nós não conseguimos construir instrumentos de integração latino-americana como uma política de Estado”, ressaltou o professor da UFRJ.
Vanessa Martina Silva/ Opera Mundi

A América Latina demonstra que decidimos viver em igualdade, em paz e com justiça, diz Galarza
Brasil
A peculiaridade do Brasil na América Latina, que tem como principal fator distanciador dos demais países o idioma, além de aspectos culturais e econômicos, também foi apontado como um desafio à integração regional.
Mas, para o diplomata equatoriano, esse não é um entrave. “Habitualmente pensamos que a diversidade é uma ameaça aos processos de integração, mas ela é uma oportunidade. Não falo só da diversidade linguística, como também da pluralidade e diversidade de pensamento, economia, instituições tudo o que nos caracteriza como latino-americano é essa diversidade. ​Não há um sistema ideológico e político alheio à condição de ser latino-americano”. 
Fuser, no entanto, cravou que “o desafio da integração para o Brasil é duplo: antes de avaliarmos a integração, temos que ver a identidade latino-americana. O Brasil não se identifica com a América Latina. A identificação sempre é com o opressor”, observou.
“Os brasileiros se sentem latino-americanos? Se não somos capazes de responder essa pergunta, se a maior parte do povo brasileiro não sabe a importância e o valor de ser latino-americano, e isso não pode ser tema de discursos, de utopia, deve ser pragmático servir para a qualidade de vida do brasileiro, na melhoria de suas condições de trabalho. Então será importante para os brasileiros ser latino-americano. Se não for assim, teremos uma utopia que não nos serve para caminhar, mas uma utopia que nos condena ao labirinto”, concluiu Galarza
Fonte: Opera Mundi
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