sexta-feira, 3 de julho de 2015

Entidades do Semiárido brasileiro criticam novo modelo de cisternas feito de plástico

Cisterna de PVC, foto Youtube
Pelos caminhos do Semiárido brasileiro, a cor cinza e o material plástico destoam do cenário tipicamente sertanejo. Reservatórios de água feitos de polietileno são instalados nas casas das famílias como uma opção simples e rápida para o armazenamento de água, no lugar das cisternas de placas. O projeto, encampado pelo Ministério da Integração Nacional dentro do programa Água para Todos, tem como objetivo acelerar a instalação de sistemas de captação de água no Semiárido brasileiro.
A aposentada Edite Soares de Azevedo, que mora na comunidade São João, em Crateús, foi uma das beneficiadas e considera a cisterna “o melhor presente” que já ganhou. Cuidadosa, ela mandou lavar a cisterna antes das chuvas deste ano, que a encheram completamente, mas a pessoa que executou o serviço pisou no tampo do reservatório e deixou um lado amassado. “Eu tenho muito ciúme dessa cisterna. Todo mundo é muito feliz com essa benção. Eu economizo muito essa água, dou muito valor.” A cisterna fica na lateral da casa, sob a sombra de uma árvore. Mesmo assim, Edite quer construir uma coberta para preservar o material plástico do sol forte. A indicação é feita pelo Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Crateús para que os reservatórios durem mais, uma vez que há relatos de cisternas de polietileno que deformaram devido ao calor.
O agricultor Leônidas Moreno dos Santos foi um dos que fizeram uma coberta de alvenaria para o reservatório, que chegou há pouco mais de um ano na sua casa. “O encarregado da empresa que instalou disse que, se a gente cobrisse, era melhor. A cisterna engelhou antes de encher, mas depois que encheu eu cavei mais um pouco [a vala onde foi instalada] e ela voltou ao normal.” A bomba manual, no entanto, já quebrou e a família providenciou um balde para pegar água no reservatório. “A bomba não funciona, mas, de qualquer maneira, está bom só de termos a cisterna.”
A instalação de uma cisterna de polietileno envolve, pelo menos, dois momentos: um em que se cava a vala para receber o reservatório e outro em que os itens são instalados. Deveria ser um processo rápido, mas na casa de Leônidas passaram-se meses entre uma fase e a outra. “Perdemos algumas chuvas de 2014. Foi um ano difícil. Chegamos a passar um dia sem comer porque não tinha água”, relata a esposa, Ivonete Alves Moreno. No Ceará, 2015 é o quarto ano seguido de seca.
Além da desconfiança sobre a qualidade do material, diversas entidades criticam o novo modelo de cisternas pelo fato de elas quebrarem a lógica da mobilização das comunidades na construção, no manejo e na manutenção dos reservatórios.
“Com R$ 2,5 mil, a gente consegue construir a cisterna de placas com o processo de formação junto. Já a cisterna de polietileno custa cerca de R$ 6 mil, além do custo do transporte para levá-las às comunidades, e não gera renda local. Uma empresa é contratada, chega e instala. Não tem o processo de formação, mas sim de entrega. Isso quebra toda a lógica de mobilização social que a gente tem feito nos últimos anos. Volta toda aquela história da indústria da seca”, comenta o coordenador de projetos da Cáritas de Crateús, Adriano Leitão, acrescentando ainda a preocupação com a sustentabilidade. Ele prevê que, por serem de material plástico, as cisternas que forem estragando ao longo dos anos vão virar lixo.
O professor da Universidade Federal do Semiárido (Ufersa), Joaquim Pinheiro, reitera essa opinião e considera que o projeto de instalação de cisternas de polietileno desrespeita a trajetória das entidades envolvidas nos projetos de construção das cisternas de placas. “Nem sempre o menos trabalhoso é melhor. A cisterna de polietileno desconstrói toda a metodologia da participação, dos beneficiários terem conhecimento sobre como faz a cisterna. Com essa outra cisterna, as pessoas não sabem como resolver se der um problema. Parece uma solução mais fácil, mas, do ponto de vista de, através de uma tecnologia, você construir um processo educativo, a cisterna de polietileno não dá contribuições.”
O secretário nacional de Segurança Alimentar e Nutricional do Ministério do Desenvolvimento Social, Arnoldo de Campos, reconhece que a tecnologia de placas é mais vantajosa tanto pelo preço menor envolvido na sua construção como pela mobilização das comunidades. No entanto, ele considera que a chegada do Ministério da Integração Nacional com o modelo de cisternas de polietileno acelerou a capacidade de instalação de reservatórios no Semiárido. “O debate colocado pela sociedade é legítimo e o próprio ministério faz a opção pela tecnologia de placas. No entanto, dentro da urgência, as pessoas não podem esperar. Você imagine uma família sem esse equipamento esperando o MDS chegar. Acho que chegaríamos, com certeza, mas com o apoio do Ministério da Integração chegamos a muito mais famílias em uma velocidade muito maior.”
Já o ministro da Integração Nacional, Gilberto Occhi, disse que vai procurar os órgãos envolvidos na instalação das cisternas de polietileno para avaliar a execução e a qualidade das obras. “Nós temos um papel de fiscalizador, já que é o governo federal que faz o investimento. Todos os que participaram desse grande empreendimento são responsáveis. Vamos corrigir falhas para a continuidade do programa e também trabalhar para que elas não se repitam.”
*Colaborou TV Ceará
Por Edwirges Nogueira, da Agência Brasil/EBC*
FONTE: EcoDebate
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