terça-feira, 21 de abril de 2015

A importância da vida no solo para a Agricultura

Ana Elisa Feliconio, especialmente para o Sítio do Moinho
A agricultura é a arte de colher o sol. Esta frase, divulgada nos cursos de Agronomia, expressa o quanto a agricultura depende de fenômenos e elementos naturais mais do que qualquer outra atividade econômica conhecida. Isso ocorre porque a produção agropecuária depende de uma capacidade especial que só os vegetais possuem dentre todas as espécies vivas: a de sintetizar seu próprio alimento.
Porém, assim como todos os demais seres vivos, as plantas também precisam de água e nutrientes minerais que são retirados pelas raízes do solo. Entretanto, somente as plantas podem “fabricar” as substâncias orgânicas que necessitam para sua nutrição e o fazem através de um processo bioquímico chamado de fotossíntese, o qual depende da energia do sol para acontecer.
A fotossíntese pode ser definida como uma complexa cadeia de reações, realizada através da energia luminosa absorvida por pigmentos especiais (como a clorofila), que resulta na síntese de compostos orgânicos (açúcares) a partir de gás carbônico e água(Modesto&Siqueira, 1981:13.9). Todos os demais compostos essenciais para estrutura e metabolismo celular da planta são produzidos através desses compostos orgânicos resultantes da fotossíntese. E como todos os organismos vivos dependem dos vegetais para sobreviver, podemos dizer, que a vida na Terra depende do processo de fotossíntese para existir.
É esta energia do sol condensada e sintetizada nos tecidos vegetais em compostos orgânicos que torna os alimentos combustíveis para o crescimento e desenvolvimento de todas as espécies no planeta. Contudo, essa energia não fica estanque nos corpos dos animais que se alimentam das plantas: ela vai sendo gradativamente dissipada na medida em que um animal consome outro até a morte e a degradação dessa matéria orgânica pelos organismos chamados dedecompositores. É sobre a importância desses e de outros organismos que vivem nos solos que vamos tratar.
Os fungos e bactérias decompositores desempenham um papel fundamental na reciclagem dos elementos químicos na natureza. Eles se nutrem dos cadáveres de plantas e animais, decompondo-os, ou seja, transformando as substâncias orgânicas desses corpos em outras mais simples, posteriormente reutilizadas para a síntese de novas moléculas orgânicas. Se não ocorresse esse reaproveitamento de elementos químicos ao longo das gerações, em breve se esgotariam os recursos naturais existentes para constituir novos seres vivos. Nesse sentido, a vida está continuamente sendo recriada, a partir dos mesmos átomos(Amabis&Martho, 1994).
Além de decomporem a matéria orgânica e permitirem a reciclagem de minerais nos ecossistemas ao longo dos séculos, os microorganismos (fungos, bactérias e algas) e também aqueles visíveis a olho nu (minhocas, formigas, cupins, coleópteros, etc) realizam uma série de atividades fundamentais para a sobrevivência de plantas e animais.
No solo as principais atividades dos organismos são, a decomposição da matéria orgânica, produção de húmus, ciclagem de nutrientes e energia, fixação de nitrogênio atmosférico, produção de compostos complexos que causam agregação do solo, decomposição de alguns compostos poluentes e controle biológico de pragas e doenças ( Siqueira&Moreira, 2004). A seguir, serão apresentados alguns exemplos da contribuição desses organismos para a agricultura orgânica.
A contribuição dos organismos que vivem no solo: alguns exemplos
As minhocas ao cavarem galerias pelos solos, favorecem a passagem de ar e água no interior deste, tornando os solos mais porosos e facilitando a penetração das raízes das plantas no mesmo. Ao se alimentarem da matéria orgânica no solo e de minerais, as minhocas também contribuem para aumentar a fertilidade dos campos cultivados, visto que podem produzir até 18.000 Kg de dejetos por hectare. Estes resíduos do trato digestivo das minhocas contém grandes quantidades de nitrogênio ( na forma de nitrato), cálcio. Magnésio, potássio e fósforo, assim como pH favorável ao desenvolvimento e nutrição das raízes das plantas cultivadas (Brady, 1989). Essa influência benéfica das minhocas é importantíssima para a agricultura nos trópicos, visto que os solos das regiões tropicais são naturalmente mais pobres em nutrientes minerais que os das regiões mais frias do planeta.
Além disto, não apenas as minhocas, mas também os cupins e as formigas ao manipularem, ingerirem e excretarem material de solo, ajudam a formar microagregados e a construir poros, tornando a estrutura do solo mais resistente aos processos naturais de erosão pelos ventos e chuvas ( Primavesi, 2000).
Deste modo, podemos dizer que a disponibilização de nutrientes feita pelas minhocas e outros seres vivos é um valioso serviço para incrementar a fertilidade e melhorar a estrutura física dos solos tropicais, tornando as propriedades agrícolas menos dependente de práticas como a aração ou de insumos (adubos, sais minerais) externos. Buscando fortalecer a biodiversidade presente no solo, os agricultores orgânicos aplicam uma série de técnicas para incrementar a matéria orgânica nos 30 cm superficiais do solo, onde a concentração desses organismos vivos é imensa (Primavesi, 2000).
Outra contribuição importante é a das bactérias do gêneroRhizobium. Elas podem viver livremente no solo, porém, quando as plantas da família das leguminosas estão presentes, estas bactérias preferem se associar às raízes das plantas. Elas habitam as raízes das leguminosas, formando nódulos que podem ser vistos a olho nu como pequenas bolinhas, nas quais vivem milhares de bactérias. Em troca de açúcares e outros nutrientes que as leguminosas lhe fornecem, as bactérias do gênero Rhizobium captam o nitrogênio do ar e disponibilizam para suas plantas hospedeiras, numa relação em que os dois organismos se beneficiam e que é chamada de “mutualismo” pela biologia.
Sem a presença destas bactérias, as leguminosas não teriam capacidade para captar sozinhas o nitrogênio da atmosfera e teriam seu desenvolvimento limitado pela falta deste nutriente essencial, presente nas moléculas das proteínas. Dependeriam, portanto, exclusivamente da adubação feita pelo agricultor, o que implicaria em maiores custos para a produção de alimentos e também em indesejáveis efeitos ambientais, como a poluição das águas subterrâneas pelo uso de adubos sintéticos de alta solubilidade. Além disto, se a adubação for realizada com estes fertilizantes altamente solúveis o custo energético para o planeta é alto: em geral se gasta 02 L de petróleo (recurso natural não renovável) para se produzir 01 L de nitrato, matéria-prima dos adubos que fornecem nitrogênio às plantas (Paschoal, 1994).
Além de realizarem o trabalho de captação do nitrogênio do ar a custo zero para os agricultores, quando as leguminosas morrem e se decompõem na lavoura (restos das culturas após a colheita), o nitrogênio volta a ficar disponível no solo para os próximos cultivos, fechando o ciclo da fixação biológica (feita pelas bactérias) e do aproveitamento de nitrogênio na agricultura.
Certas espécies de fungos existentes no solo também contribuem com algumas espécies comerciais (milho, feijão, maçã e morango), fornecendo água e minerais em troca de uma dieta de açúcares. Estes fungos possuem estruturas especiais chamadas de micorrizas que se conectam às raízes das plantas pelo lado de fora ou internamente, de forma a estabelecer com as plantas uma relação de cooperação onde ambos ganham. Ou seja, também se trata de uma relação de mutualismo (Gliessman, 2000).
Outra contribuição importante dos fungos é aquela exercida pelas espécies chamadas de “bolores”. Os quatro gêneros mais comuns de bolores são: Penicillium, Mucor, Fusarium e Aspergillus. Todos nós conhecemos estes gêneros de fungos, pois são eles que colonizam os alimentos (frutas, pães) no processo de decomposição, quando aparecem pontos esverdeados ou brancos sobre a comida. Estes bolores também habitam os solos em quantidades inumeráveis, sendo muito eficientes na decomposição da matéria orgânica no solo: eles continuam a decompor mesmo quando as bactérias e outro organismos param de funcionar. São, portanto, verdadeiros “recicladores” de nutrientes e minerais nas lavouras 
(Brady, 1989).
Estes exemplos ilustram uma condição comum nos sistemas orgânicos de produção: quando mais diversificado for o solo em espécies de microorganismos, maiores serão as relações de cooperação entre estes organismos e as plantas cultivadas. Também serão maiores as chances de existirem neste solo, espécies que atuem como inimigos naturais dos fungos e bactérias que causem doenças ou parasitem as lavouras. A diversidade de vida microscópica favorece o equilíbrio ecológico também abaixo da superfície do solo, contribuindo para a estabilidade do sistema solo-planta-microorganismo de forma a reduzir sua vulnerabilidade a fatores externos (ataque de outros organismos, carência de alguns nutrientes, falta temporária de água, etc.).
Por essas razões que na agricultura orgânica todas as práticas de manejo de solos, águas, plantas e criação animal visam criar condições que beneficiem a vida presente nos solos. Este é considerado não um mero suporte físico, mas um ecossistema cheio de vida, no qual através de complexas interações, os organismos que lá vivem irão disponibilizar tudo o que a planta precisa: ar, água, espaço para raízes e nutrientes( Primavesi, 2000; Steiner, 2000). Técnicas, como a adubação e o manejo do solo e das plantas silvestres na propriedade visam alimentar esse solo vivo. Ele é a base do agroecossistema, que nada mais é do que um sistema agrícola compreendido com um ecossistema(Gliessman, 2000:629).
Portanto, podemos dizer que a produção dos alimentos orgânicos resgata nos dias atuais, com o respaldo de estudos científicos, um conhecimento que os índios já possuíam no ano de 1500: que a terra é cheia de vida e, quando tratada com respeito, oferta essa vida em flores e frutos abundantes.

Bibliografia citada
Amabis, J. M; Martho, G. R. Biologia das Populações: genética, evolução e ecologia. São Paulo: Moderna, 1994.
Brady, N. C. Natureza e propriedade dos solos. Rio de Janeiro: Freitas Bastos, 1989.
Gliessman, S. R. Agroecologia: processos ecológicos em agricultura sustentável. Porto Alegre: Ed. Universidade/ UFRS, 2000.
Modesto, Z. M.M.; Siqueira, N. J. B. Botânica: Currículo de Estudos de Biologia. São Paulo: USP, 1981.
Paschoal, A D. Produção Orgânica de Alimentos: agricultura sustentável para os séculos XX e XXI. Piracicaba: Adilson D. Paschoal, 1994.
Primavesi, A. Cartilha do Solo: como reconhecer e sanar seus problemas. Fundação Mokiti Okada: Apostila, 2000.
Siqueira, J. O.; Moreira, F. M. S. Biologia e Bioquímica do Solo . Lavras: Universidade Federal de Lavras, 2004.
Steiner, Rudolf. Fundamentos da agricultura biodinâmica: nova vida para a terra. São Paulo: Antroposófica, 2000.
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